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As ferramentas mudaram.
O padrão, não.

Descobri a programação num sítio no interior do Brasil, por volta de 1998. Eu tinha 15 anos, um computador de segunda mão, um livro de MS-DOS 6.0 e nenhuma internet. Nenhum amigo por perto. Nenhum acesso a conhecimento técnico. Só um moleque que queria ser inventor.

Numa tarde, entre montar pequenos aparelhos eletrônicos e uma garra de metal do Wolverine (sim, é sério), esbarrei num arquivo chamado GORILA.BAS (uma demo de QBasic). Abri, vi linhas de código coloridas e algo fez sentido. Eu tinha encontrado um universo que era natural para mim.

Dos satélites às startups

Aos 19, consegui uma bolsa de pesquisa no INPE, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Emprego dos sonhos para qualquer nerd: componentes eletrônicos infinitos, projetos fascinantes, gente brilhante. Escrevi drivers de kernel Linux para hardware de comunicação por satélite com 99,5% de precisão e fiquei em primeiro lugar entre 40 bolsistas.

Mas ciência no Brasil não paga as contas. Minha bolsa era de R$ 150/mês. Então fui para a iniciativa privada.

Na Embraer, passei 7 anos aprendendo a construir sistemas de produção. Comecei em publicações técnicas de aeronaves e logo passei a automatizar processos com scripts bash em máquinas da Sun Microsystems. A Embraer me deu tempo para me formar em Engenharia da Computação, estudar Matemática Aplicada e crescer como engenheiro.

Depois de 7 anos, me senti preso. Eu queria voar mais longe.

Construir, falhar, construir de novo

Pedi demissão e cofundei uma startup. Em 2008, antes de o WordPress se popularizar no Brasil, construímos do zero um sistema de pedidos para delivery de comida: PHP, MySQL, o clássico código espaguete de startup.

Esse sistema processou mais de R$ 18 milhões em transações, chegou a todos os estados do Brasil e se expandiu para a América Latina. Mas caímos na armadilha clássica: fomos adicionando funcionalidades para transformá-lo num ERP e perdemos o que fazia ele funcionar. Aí um player chamado iFood entrou no mercado.

Seguimos tentando até 2018. Mais dois ou três projetos que não deram certo, queimando dinheiro de investidores e o nosso. Em certo momento, eu era casado, tinha um filho e andava 12km por dia porque não tinha dinheiro para a gasolina. Trabalhava remotamente para a Solvay, uma multinacional belga com €10 bi+ de faturamento, das 3h ao meio-dia atendendo a operação europeia, ficava no escritório até as 17h e depois dava aula numa faculdade local até as 23h. Dormindo 3 horas por noite. Durante dois anos.

Nenhuma graduação em computação cobre isso. Aquele período cobriu.

30.000 alunos e um negócio digital

Em 2016, criei meu primeiro curso, “Programar do Zero”, ensinando pessoas que não programavam a programar. Na época, programação ainda era um assunto principalmente acadêmico no Brasil. Deu certo.

Mais de R$ 5 milhões em faturamento. 30.000+ alunos. 80.000 inscritos no YouTube. Na pandemia, explodiu. No pico, o faturamento orgânico era de R$ 50-70 mil/mês e, com tráfego pago, R$ 300 mil/mês.

Rumo ao global

Em 2022, entrei no TUI Group, a maior empresa de turismo do mundo (€23 bi de faturamento), como Tech Lead do sistema global de checkout. Trabalhando remotamente do Brasil, liderei um time de 12 pessoas em 4 mercados europeus, construindo um sistema transacional multimoeda que processa 5M+ reservas por ano, com 25 microsserviços e 99,9% de uptime.

Depois da Solvay e da TUI, eu tinha provado que conseguia entregar em escala corporativa, atravessando fusos horários e culturas. 100% remoto, do Brasil para a Europa.

Aí a IA mudou tudo

Em 2024, percebi que não conseguiria crescer mais dentro do meu “negócio digital trabalhando 4 horas por semana”. A ascensão dos agentes de IA para código mudou o que era possível.

Mas a régua não mudou: produção, ou não conta. Então levei 25 anos de disciplina de engenharia para os agentes. Escrevo a spec antes do código, deixo os agentes executarem contra o contrato, depois reviso e entrego. Treinei 400+ profissionais no método.

Fintech cripto: 13 apps em 70 dias

No fim de 2025, construí uma fintech cripto completa. Sozinho. Em 70 dias. Usando Claude Code guiado por especificações.

A plataforma inclui um gateway de pagamento com integração ao PIX, o sistema de pagamentos instantâneos do Brasil (3 bi+ de transações por mês, comparável ao UPI da Índia), conectado a 4 provedores via factory pattern, com validação de webhooks por HMAC-SHA256 e certificados de cliente mTLS.

Ela também tem um motor de exchange OTC com precificação por VWAP (janela móvel de 24h), cross-rates de 5 fontes agregadas com filtro por mediana e outliers, e spreads assimétricos de compra/venda. O settler da exchange cuida da detecção de depósitos on-chain (polling a cada 10s), confirmação em 2 blocos, reembolso automático por tolerância e recuperação após falhas.

A stack completa: 13 aplicações, 3 APIs Fastify, 3 bancos PostgreSQL, OAuth 2.1/OIDC completo (5 papéis, 19 scopes, 18 permissões granulares, 2FA), Kubernetes com auto-scaling, IaC com Terraform e monitoramento com Prometheus/Grafana.

Dinheiro de verdade passando pelo sistema. Fintech em nível de produção, com compliance, não um protótipo.

Não foi a IA que construiu. Foi a especificação.

Agora: AI Engineer no iFood

Desde agosto de 2026, sou AI Engineer no iFood, a maior empresa de delivery de comida da América Latina. Ciclo fechado: o mesmo player que um dia entrou no mercado da minha primeira startup.

Fui o primeiro integrante do novo departamento de DATA & AI no Marketplace, onde 3.500+ engenheiros em 200+ squads já experimentavam com IA por conta própria. Meu trabalho é capturar o que funciona, conectar os squads que resolvem o mesmo problema isoladamente e empacotar o resultado em padrões que a organização inteira consiga adotar.

O que estou construindo

Em paralelo, estou produzindo conteúdo educacional: um ebook, um curso e uma série no YouTube sobre como construir sistemas de produção com agentes de IA: como especificar o trabalho, como fazer o harness dos agentes e a arquitetura que impede que eles quebrem. A IA mudou como escrevemos código, não como pensamos sobre ele.

Vamos conversar.